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Homilia de Dom José Ruy na Missa Crismal


30/03/2018   12:24:18

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Aos Diletos Presbíteros e Diáconos da Diocese de Jequié,

Prezados Seminaristas,

Reverendas Irmãs na Vida Consagrada,

Estimado Povo de Deus,

 

 

Queridos irmãos 
Prezadas irmãs,

 

 

                    Pela sexta vez, o Senhor nos dá a Graça de estarmos juntos na Quinta-Feira Santa, dia em que o Senhor confiou aos Doze a tarefa sacerdotal de celebrar, no pão e no vinho, o Sacramento do seu Corpo e do seu Sangue, até à sua volta. O cordeiro pascal e todos os sacrifícios da Antiga Aliança são substituídos pela dádiva do seu Corpo e do seu Sangue, pelo dom de Si mesmo. Assim, o novo culto fundamenta-se no fato de que, em primeiro lugar, Deus nos oferece um dom e nós, repletos deste dom, tornamo-nos seus: a criação regressa ao Criador. Deste modo, também o sacerdócio se tornou algo de novo: já não é uma questão de descendência, mas um encontrar-se no mistério de Jesus Cristo.

                   O Papa Bento XVI, no início de seu Pontificado, assim expressava: “Ele é sempre Aquele que doa e, no alto, nos atrai a Si. Somente Ele pode dizer: ‘Isto é o meu Corpo isto é o meu Sangue’. O mistério do sacerdócio da Igreja encontra-se no fato de que nós, pobres seres humanos, em virtude do Sacramento, podemos falar com o seu Eu: in persona Christi. Ele quer exercer o seu sacerdócio através de nós”. Este mistério comovente, que em cada celebração do Sacramento volta a tocar-nos, nós recordamos de maneira particular na Quinta-Feira Santa. A fim de que a vida quotidiana não desperdice o que é grande e misterioso, temos necessidade desta lembrança específica, precisamos de regressar à hora em que Ele impôs as suas mãos sobre nós e nos tornou partícipes deste mistério. Precisamos valorizar o sagrado em nossa vida, a fim de que não sejamos mundanizados.

                   Por isso, retomando a citada homilia do Papa Emérito, voltemos a refletir sobre os sinais em que o Sacramento nos foi concedido. “No centro encontra-se o antiquíssimo gesto da imposição das mãos, com o qual Ele tomou posse de mim, dizendo-me: ‘Tu me pertences’. Mas com isto disse também: ‘Tu estás sob a proteção das minhas mãos. Tu te encontras sob a proteção do meu coração. Tu estás conservado na palma da minha mão e é precisamente assim que te encontras na vastidão do meu amor. Permanece no espaço das minhas mãos e dá-me as tuas’.

                Além disso, recordemos que as nossas mãos foram ungidas com o óleo, que é o sinal do Espírito Santo e da sua força. Por que precisamente as mãos? A mão do homem é o instrumento do seu agir, é o símbolo da sua capacidade de enfrentar o mundo, exatamente de "o tomar pela mão". O Senhor impôs as suas mãos sobre nós e agora quer as nossas mãos a fim de que, no mundo, se tornem suas. Deseja que elas não sejam mais instrumentos para tomar as coisas, para contar dinheiro,  para o reduzir as pessoas à nossa posse mas, ao contrário, para que transmitam o seu toque divino, colocando-se ao serviço do seu amor. Quer que nossas mãos sejam instrumentos do serviço.  Se as mãos do homem representam simbolicamente as suas faculdades e, em geral, a técnica como poder de dispor do mundo, então as mãos ungidas devem constituir um sinal da sua capacidade de doar, da criatividade no ato de plasmar o mundo com o amor e para isso, sem dúvida, temos necessidade do Espírito Santo. No Antigo Testamento, a unção é sinal da admissão para um serviço: o rei, o profeta, o sacerdote faz e dá mais do que aquilo que deriva da sua pessoa. De certo modo, é despojado de si próprio em função de um serviço, em que se põe à disposição de alguém que é maior do que ele. Se hoje Jesus se apresenta no Evangelho como o Ungido de Deus, como Cristo, então isto quer dizer precisamente que Ele age por missão do Pai e na unidade com o Espírito Santo e que, desta forma, entrega ao mundo uma nova realeza, um novo sacerdócio, um renovado modo de ser profeta que não busca a si mesmo, mas vive para Aquele em vista de quem o mundo foi criado. Hoje voltemos a colocar as nossas mãos à sua disposição e peçamos-lhe que nos tome novamente pelas mãos e que nos oriente.

                     No gesto sacramental da imposição das mãos por parte do Bispo foi o próprio Senhor que impôs as suas mãos sobre mim. Este sinal sacramental resume todo um percurso existencial. Uma vez, como aconteceu com os primeiros discípulos, encontramos o Senhor e ouvimos a sua palavra: ‘Segue-me!’. Talvez, inicialmente, O tenhamos seguido de maneira um pouco instável, olhando para trás e perguntando-nos se tal caminho era realmente o nosso. E numa certa altura do caminho, talvez tenhamos vivido a experiência de Pedro depois da pesca milagrosa, ou seja, talvez nos tenhamos assustado pela sua grandeza, pela enormidade da tarefa e pela insuficiência da nossa pobre pessoa, a ponto de desejarmos recuar: ‘Afasta-te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador’" (Lc 5, 8).

                    Mas em seguida, com grande bondade, Ele, pegou-nos pela mão, atraiu-nos a Si e disse-nos: "Não tenhas medo! Eu estou contigo. Não te deixo, mas também tu não me deixes!". E, certas vezes, com cada um de nós talvez tenha acontecido a mesma coisa que aconteceu com Pedro quando, caminhando sobre as águas ao encontro do Senhor, repentinamente sentiu que a água não o sustentava e que estava prestes a afundar. E como Pedro, também nós gritamos: “Salva-me, Senhor!” (Mt 14, 30). Vendo a violência da natureza, como podíamos passar pelas águas ruidosas e espumosas do século passado e do último milênio? Mas então olhamos para Ele... e Ele agarrou-nos pela mão e atribuiu-nos um novo “valor” para que valorizemos as coisas do alto. Repito, valorizemos o sagrado em nosso ministério. E depois estende-nos a mão, que apoia e orienta. É Ele que nos sustenta. 
Fixemos sempre de novo o nosso olhar nele e estendamos-lhe as mãos. Deixemos que a sua mão nos conduza e assim não afundaremos, mas serviremos a vida, que é mais forte do que a morte; e o amor, que é mais vigoroso do que o ódio. A fé em Jesus, Filho do Deus vivo, é o instrumento através do qual sempre de novo tomamos a mão de Jesus e o seguimos nos deixando nas “mãos de Deus”. Há 25 anos atrás, descobri no missal uma oração que se tornou uma das minhas preferidas. É a súplica que a liturgia coloca em nossos lábios, antes da Comunhão: "...nunca permitais que eu me separe de vós". Peçamos para nunca permanecer fora da comunhão com o seu Corpo, com o próprio Cristo, para nunca ficarmos fora do mistério eucarístico. Peçamos que Ele jamais deixe a nossa mão...

                O Senhor impôs as suas mãos sobre nós. E expressou o significado deste gesto com as seguintes palavras: "Já não vos chamo servos, visto que o servo não está ao corrente do que faz o seu senhor; mas a vós chamei-vos amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi do meu Pai" (Jo 15, 15). Já não vos chamo servos, mas amigos: nestas palavras bem que se poderia chegar a ver a instituição do sacerdócio. O Senhor faz-nos seus amigos; confia-nos tudo; e confia-nos a Si mesmo, de tal modo que possamos falar com o seu Eu in persona Christi capitis. Que confiança!

                   “Ele colocou-se realmente nas nossas mãos. Todos os sinais essenciais da Ordenação sacerdotal são manifestações desta palavra: a imposição das mãos; a entrega do livro da sua palavra, que Ele nos confia; a entrega do cálice, com o qual nos transmite o seu mistério mais profundo e pessoal. De tudo isto faz parte também o poder de absolver: Ele faz-nos participar inclusive na sua consciência, em relação à miséria do pecado e a toda a obscuridade do mundo, enquanto coloca nas nossas mãos a chave para reabrir a porta da casa do Pai”. (Bento XVI).

                    Já não vos chamo servos, mas amigos. Este é o profundo significado do ser sacerdote: tornar-se amigo de Jesus Cristo. Por esta amizade devemos renovar todos os dias o nosso compromisso. Amizade significa comunhão no pensamento e na vontade. Esta comunhão de pensamento não é algo unicamente intelectual, mas sim comunhão dos sentimentos e da vontade e, por conseguinte, também do agir. Isto significa que devemos conhecer Jesus de modo cada vez mais pessoal, ouvindo-O, vivendo juntamente com Ele, permanecendo ao seu lado. A leitura da Sagrada Escritura é oração, deve ser oração deve emergir da oração e conduzir à oração. Os Evangelistas dizem-nos que o Senhor durante noites inteiras se retirava reiteradamente "no monte" para rezar sozinho. Também nós temos necessidade deste "monte": trata-se da altura interior que devemos escalar, o monte da oração. É somente assim que a amizade se desenvolve. Só deste modo podemos realizar o nosso serviço presbiteral, somente assim podemos anunciar Cristo e o seu Evangelho aos homens. O simples ativismo pode chegar a ser heróico. Mas se não nascer da profunda e íntima comunhão com Cristo, no final de contas o agir exterior permanecerá infecundo e perderá a sua eficácia. O tempo que dedicamos a isto é verdadeiramente um tempo de atividade pastoral, de um serviço autenticamente pastoral. O sacerdote deve ser sobretudo um homem de oração. No seu ativismo frenético, o mundo perde com frequência a orientação. O seu agir e as suas capacidades serão destruidores, se definharem as forças da oração, das quais brotam as águas da vida, capazes de fecundar a terra árida.

                           Já não vos chamo servos, mas amigos. “O núcleo do sacerdócio é o fato de sermos amigos de Jesus Cristo. Somente assim podemos falar verdadeiramente in persona Christi, embora a nossa distância interior de Cristo não possa comprometer a validade do Sacramento. Ser amigo de Jesus, ser sacerdote, significa ser homem de oração. É deste modo que O reconhecemos e saímos da ignorância dos simples servos. Assim aprendemos a viver, a sofrer e a agir com Ele e por Ele. A amizade com Jesus é, por antonomásia, sempre amizade com os seus. Só podemos ser amigos de Jesus na comunhão com Cristo inteiro, com a cabeça e o corpo; na videira exuberante da Igreja, animada pelo seu Senhor. Somente na Igreja, a Sagrada Escritura é, graças ao Senhor, Palavra viva e atual”.

                        Ser sacerdote significa tornar-se amigo de Jesus Cristo, e isto cada vez mais com toda a nossa existência. O mundo tem necessidade de Deus não de um deus qualquer, mas do Deus de Jesus Cristo, do Deus que se fez carne e sangue, que nos amou a ponto de morrer por nós na Cruz, que ressuscitou e criou em Si mesmo um espaço para o homem. Este Deus deve viver em nós, e nós nele. Esta é a nossa vocação sacerdotal: somente deste modo o nosso agir presbiteral pode dar fruto.

                        Gostaria de concluir esta homilia, como fiz nas anteriores por esta ocasião. Todos nós fomos “influenciados” positivamente por algum padre que nos despertou em nossa vocação. Devemos viver e ir para além das lembranças. Hoje existem “colegas” no sacerdócio que admiramos e que nos influenciam em nosso agir diário. Sempre tive o ocasional costume de homenagear, reconhecer e agradecer algum sacerdote. Mesmo quando gerou algum desconforto por sentimentos humanos de incompreensão.  Ao longo deste um quarto de século, me vem à memória afetiva o hino tantas vezes cantarolado por minha madrinha de batismo e que foi canto de comunhão de minha ordenação episcopal. Nunca imaginei que a letra da harmoniosa melodia do “eu quisera”, fosse o saudoso Monsenhor José Gilberto de Luna. Muito comovente foi em sua missa de corpo presente, seus paroquianos lembrarem do padre que os ajudou a descobrir tão somente e sobretudo, que “Cristo é o amigo, a força e a razão do meu ser” e que somos verdadeiramente animados na vida “pela doce esperança de um dia vê-Lo no Céu”. Naquele instante senti profundamente a grande alegria de ser sacerdote.

                            Ao tempo em que saúdo, homenageio e agradeço a cada um de vocês, sacerdotes, almejo que seja este o grande testemunho nosso: amigos de Cristo e que seja esta a nossa grande missão: fazermos amigos de Cristo. Amém!